Natural de Vila Viçosa – 1946
“A grandiosidade das pessoas pode também ser sinónima de pequenez...”.
Pintar e desenhar é para mim aquilo a que chamo de libertação do pequeno e do
grande.
É realmente a sensação de viver num mundo enorme cheio de coisas belas, mas ao
mesmo tempo tão pequeno, ínfimo mesmo, “perdido” no desmesurado e grandioso
Universo. O meu autodidactismo nestas coisas da expressão plástica faz-me sentir
tão liberto desse pequeno tão grande ou desse grande tão pequeno...
António Maria
DO MAR À TERRA (“E MARI IN TERRAM”) “Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o meu secreto bailar do meu sonho” Sophia, “Mar sonoro”, in Obra Poética I Fomos ter com o artista. Sim, o artista desceu à terra e veio conviver com os humanos, nós os humanos que, de tão terra a terra, tivemos dificuldade de subir ao Olimpo do artista. E deixámo-nos conviver com ele, porque ele sabe do mundo onde vive e despertou-nos o apetite para passarmos com ele não quaisquer momentos, mas os momentos de grande convívio intrínseco. Porque só ele tem o condão de chamar o homem terreno para o convívio artístico, para a delicadeza cultural que está ausente a quem não sabe saborear as delícias que, de tão espirituais, escapam, de todo, à humanidade em lodaçal enfronhada. E seguindo o seu percurso, o percurso que lhe era familiar, desligámo-nos do que é demasiado terreal para nos aproximarmos do perfume com que nos enleou, com que nos foi amestrando para nos libertar de toda a poeira que cobria a nossa cerviz e que não nos permitia visualizar o novo horizonte. E que horizonte era este? O horizonte da morada deífica, onde só os puros, sem manchas à mistura, podem dar entrada. O artista chamou-nos ao seu mundo e foi-nos conduzindo com a sua agudeza espiritual, fazendo-nos sacudir todas as bolhas que havíamos acumulado para nos purificar com o perfume visual da beleza em ampla exposição. Ficámos fora de nós quando nos fomos habituando ao convívio, desligando-nos de qualquer penumbra, da beleza tornada realidade ao encontro psíquico-intelectual, deixando-nos emocionar não só pelas cores quentes que nos eram oferecidas pelo deslizar do pincel, como pelas maravilhas que o artista ia descobrindo do fundo do mar: elas eram conchas de audição musical, elas eram búzios de cores multifacetadas, transportadas pela cadência do barqueiro do Nautilus. “Não cabes no teu nome, búzio aberto, E transbordas em ondas, Espumoso como um vinho singular, Salgado e azul, Só bebido por náufragos E nascituros. Da terra, a olhar-te, Embebedam-se os olhos Dos poetas” Miguel Torga, “Mar”, in Diário IX E o mar deu-se de abertura à terra. Abriu seu bornal e dispôs da sua riqueza para se deixar cativar pelas doces castanhas que, qual parturiente na abertura da sua riqueza interior, entregou seu filho ao sorriso dos convivas. Libertou-se dos seus espinhos e veio alimentar o homem desejoso de um bom repasto. Rodeando com o seu manso caminhar acompanhou o caracol que despertava, com as suas antenas, para a beleza de tudo isto. Aproximou-se dos frutos que a terra, gostosa e delicadamente, ofertava, sejam eles as sumarentas laranjas com a sua fina cor a despontar, ou os pêssegos que se aconchegavam à copa umbrícola, estendida pelos braços da sâmara que se haviam disposto para os recolher sob a sua sombra que, de tão avançada, não permitiriam jamais que fossem molestados pelos raios caniculares. Eis, pois, toda esta reunião em casal vivida sem que nenhum dos elementos em paz sossegados dessem por mal empregue todo o encanto proporcionado: cada um desceu do seu pedestal, o mar abeirou-se da terra e a terra disponibilizou-se, com toda a franqueza, a relegar qualquer espinho para que o convívio fosse total. E para que nada faltasse a este banquete, como sobremesa foram postos à disposição dos seus convidados a frescura de sementes de milho que acabaram por ornamentar todos estes comensais que se haviam preparado para que a alegria fosse uma só: de olhos nos olhos como câmaras a captar as melhores reacções. “Dia! E o sol futuro que responda. Chama alada, o barco rasga a onda, Leira salgada e fria. Mansa, semeia a rede A mão do pescador. Água que só tem cor! Mas que não mata a sede! Mistura com limos, A semente do sonho assim se perde… Azul, vermelha, verde… Paira, gaivota, nos braços dos cimos!” Miguel Torga, “Faina”, in Diário III
Texto de: MANUEL PONCIANO ( professor jubilado)
Contacto do artista: aespigapinto @ hotmail.com
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António Dulcídio