Galeria Aberta

António Dulcídio da Silva Pinto Coelho

imagemEntrevista ao Semanário "O Norte Desportivo" publicada em 18 de Outubro de 2003

Autor - Pedro Miguel Gonçalves

Fotos - Patrícia de Sousa
 


Entrevista

COISAS DA DEMOCRACIA, SEGUNDO ANTÓNIO DULCÍDIO
FALTA UMA POLÍTICA PARA A CULTURA


António Dulcídio é uma amostra de uma realidade que tem de ser explicada. É um dos incontáveis artistas que o país ignora. É como ter quadros escondidos no sótão... Escondidos, sujos e esquecidos. O pintor não desiste. E pinta. Pinta porque gosta de pintar. São já 33 anos de cumplicidade com a tela. Na próxima semana, vai inaugurar uma nova galeria virtual, na Internet, aberta a todos os amantes desta arte que tenham quadros escondidos no sótão. A todos os artistas esquecidos. Ignorados.
Um pintor surrealista que quer pintar a verdade. Contradição? O surrealismo não é mentira, apenas aquilo que escapa ao racional. Com realismo, António Dulcídeo critica. Com surrealismo, sonha. Quer ver as pessoas a comprar apenas o que é útil. A arte, por exemplo. Quer respeito, nas praças, na estrada, no mundo português. E espera por uma política de Cultura que eduque os cidadãos. Ou uma política de Educação que os torne cultos. Surrealismos...

Quem é António Dulcídio?

O António nasceu na vila da Lixa – hoje, cidade –, há 44 anos, e acabou por vir para o Porto, para estudar. Começou a pintar muito cedo, com 10, 11 anos... A minha professora da segunda classe deve ter alguns dos meus primeiros quadros. O António não tem formação académica na pintura, é um autodidacta, e faz o seu percurso profissional fora desta arte. Trabalha para viver, como a maioria dos pintores portugueses. Acho que um artista não deveria vender as suas obras. Quando se pinta e se está sujeito ao mercado e aos críticos, não se consegue criar a verdade.


Mas gostaria de viver da pintura?

Sim, mas para tal necessitaria de rendimentos que me permitissem uma dedicação a tempo inteiro, sem estar dependente das obras para viver, sob pena de não criar a verdade, de não ter liberdade para criar. Não quereria sujeitar-me à vontade de clientes que me pedissem um quadro verde para condizer com as cortinas... Esta imagem retrata um pouco as limitações de um pintor que vive da sua arte.

Dos quadros que criou, quantos vendeu?

Tenho, no total, cerca de 110 e vendi dez... Já me aconteceu ter vendido alguns que não compraria para mim... A arte é muito subjectiva. Um quadro de um pintor médio já tem valores muito altos, tendo em vista que será pendurado numa parede, para alguns convidados.

O que gosta de pintar?

Como quase todos os autodidactas, comecei a pintar o que se vê. A iniciação é feita no Impressionismo, no Realismo. Depois, tentamos seguir a corrente de que mais gostamos. A minha preferida é o Surrealismo.

Fazer arte, em Portugal, é uma missão surrealista...

É difícil... O mercado é pequeno, os dez milhões quase cabem num hotel em Madrid... Além disso, temos uma classe média muito fraca, que não está sensível às questões da arte, nem tem possibilidades de o fazer. Quem poderá investir em arte, se tem outras prioridades, como uma máquina de lavar, um fogão novo, uma habitação condigna? Há problemas sociais gravíssimos que limitam a missão de quem quer fazer coisas bonitas...

Já lhe apeteceu desistir?

Quem faz isto por gosto não perde a vontade. Só desiste de pintar quem o pinta por outros motivos. Uma cena do dia-a-dia, uma fotografia, uma ideia, juntamente com a imaginação, leva-nos a «correr para a tela», de manhã, à tarde ou de madrugada. Porém, a nossa imaginação está sempre condicionada, porque ninguém consegue representar algo que não conhece. O pintor não pode inventar nada de novo. Tem de partir de um ponto ou de uma recta. Depois, temos as texturas e as cores. E há aquilo que já vimos. Podemos utilizar diferentes técnicas, mas também elas estão inventadas.

Alguns dos pintores actualmente reconhecidos tiveram de sair de Portugal. Foram para Paris, para Londres, construíram um currículo no estrangeiro, de forma a encontrar o sucesso. Hoje em dia, um pintor «normal» poderá construir esse currículo, através de uma nova «arma»...

A Internet. Permite-nos estar, não em igualdade de circunstâncias com esses artistas, mas mais perto do reconhecimento.

Tem a sua própria galeria na Internet.

Está aberta a todos os pintores que não vivem desta arte. E todos os dias surgem novos contactos, que, provavelmente, jamais apareceriam de outra forma. Mesmo que expuséssemos as nossas obras no estrangeiro. Já recebi contactos de pessoas de diversos países, até do Brasil, que pretendem expor, fazer este intercâmbio cultural.

Nesta semana, será lançada uma reformulação dessa galeria.

Chamar-se-á «Galeria Aberta» e todos os cibernautas, pintores e amantes da pintura poderão aceder a este espaço em www.galeria aberta.com. Quem quiser mostrar o seu trabalho terá apenas de enviar, por correio electrónico, as fotografias da sua criação. Eu terei o trabalho de publicar. Por outro lado, esta galeria virtual terá ligações interessantes, a outras páginas úteis, como museus, por exemplo.

Está nos seus horizontes abrir uma galeria «real»?

É uma daquelas ideias malucas que me passam pela cabeça quando penso num «jackpot» do totoloto... O mercado é muito fechado e não se entra facilmente. Gostaria de ter um espaço com pintura ao vivo, algo que ainda não vi em Portugal. Um atelier com exposição. Mas, para tal, precisava de muito dinheiro. É uma ideia utópica, pelo menos neste momento.

Tem alguma exposição em agenda?

Nenhuma. O meu próximo passo é fazer a substituição da minha página de Internet antiga, pela nova. Será algo que vai dar muito trabalho. Conto juntar, já no arranque, mais dois pintores ao grupo dos que transitam da anterior. No «mundo real», não tenho nada previsto... Nem há tempo. A pintura está em segundo plano. E grande parte da exposições em que participo está relacionada com a minha vida profissional.

A cultura e a Cultura
Há muitos artistas no anonimato.

A nossa vida cultural não é rica. É assim no cinema, no teatro... Na pintura, passa-se o mesmo. Há pessoas que pintam extremamente bem e que têm medo de mostrar a sua obra. Tenho um familiar com aguarelas lindíssimas que só agora está a mostrá-las. A Internet pode dar uma ajuda na divulgação deste tipo de trabalhos. Pode mudar o panorama.

E quem mais pode ajudar a "mudar o panorama"?

Não tem existido uma política na Cultura... Tem-se feito muito pouco. A partir do 25 de Abril, verificou-se uma certa abertura, em todas as áreas. A própria Democracia permitiu que se conhecessem trabalhos ocultados pela Ditadura... Porém, depois, não se fez mais nada pela Cultura.

E onde estão os reflexos desta falta de política?

Na sociedade... Nós atropelamo-nos, nas filas, não nos respeitamos na estrada, não paramos quando o semáforo está vermelho, e isto é falta de cultura. Ao longo destes 29 anos de liberdade, desperdiçámos a possibilidade de igualar as sociedades que são culturalmente mais ricas do que a nossa. Aquilo que reclamo já foi feito, há cinquenta anos, nas sociedades nórdicas, por exemplo. Somos um país culturalmente muito pobre. Conheço a Dinamarca e sei de que, aos sábados, o passatempo não são as telenovelas... São exposições, espectáculos, nota-se que há um fervilhar de vida cultural. E nós estamos longe disso. Somos o país da Europa que mais coisas supérfluas compra... É o que se passa com os telemóveis. Compramos o topo de gama para mostrar aos amigos. Mesmo na Internet, toda a gente fala dela, mas poucos sabem do que estão a falar. Não há um conhecimento profundo destas tecnologias. Fala-se do que não se conhece.

Os «agentes da cultura» costumam acompanhar os fenómenos de massas sem grande interesse... É adepto de futebol?


SEM POLÉMICA NÃO HÁ FUTEBOL

Os «agentes da cultura» costumam acompanhar os fenómenos de massas sem grande interesse... É adepto de futebol?

Sou e costumo ver os jogos do Futebol Clube do Porto, o meu clube. Não vou ao estádio muitas vezes, mas estou minimamente atento. E sou um adepto feliz, sobretudo nos últimos anos...

Vê o Euro’2004 como uma oportunidade para Portugal, ou como uma subversão de prioridades?

É um evento importante para o país. Agora tenho dúvidas sobre um facto: seria o mais importante, nesta altura? Haverá estádios unicamente para jogos de futebol. E quanto se gastou nessas infra-estruturas? Milhões de euros. Esse dinheiro, bem gerido, suprimiria outras carências. Já não falo da Cultura, que vem sempre em último lugar. Falo na habitação, na educação, nas redes viárias. Com boa educação, por exemplo, está a investir-se na Cultura...

Agora, é tarde de mais para lamentos...

Uma vez que temos a tarefa de organizar o Euro’2004, há que unir todos os esforços e fazer o melhor que sabemos e podemos. Espero que Portugal aproveite para limpar aquela imagem que já transmitiu: faz tudo em cima da hora... Foi assim na Expo’98... E fomos felizes. As coisas nunca ficam prontas nos prazos previstos, mas, na hora de «cortar a fita», tudo está operacional...

Vamos retirar dividendos desta organização?

Espero que tal suceda. Todo este esforço tem de dar frutos. Se tudo decorrer bem, da forma que todos queremos, transmitiremos para a Europa uma ideia: sabemos organizar um dos maiores eventos desportivos.

Com novos estádios, novas receitas. Será a «salvação» dos clubes?

Não me parece que estejamos perante a saída para a crise. É antes um «salto no escuro». Não acredito que os novos palcos tragam mais adeptos. Falta credibilidade em sectores como a arbitragem, entre outros. Depois, não temos preços convidativos. Claro que doze ou quinze contos por um ingresso não é nenhum exagero, tendo em vista a grandeza do espectáculo. É admissível que se queira cobrar um quarto do salário mínimo por um bilhete para um jogo. Ver o «Cats», em Nova Iorque, custava vinte contos. E a cultura não envolve tanta despesa como um encontro de futebol. No entanto, nós não temos rendimentos que nos permitam pagar essa quantia. Temos de adequar os custos à realidade.

Falou de arbitragens...

Mas o meu reparo vai para os jogadores. Há falta de profissionalismo por parte deles, que não acatam as decisões dos árbitros o que, para mim, é inadmissível. Por muito que lhes custe, terão de respeitar a autoridade do jogo, que é o juiz. Grande parte das polémicas que se geram deve-se à falta de educação e disciplina dos próprios jogadores. A missão dos árbitros não é fácil. Decidir num momento, sem recurso a repetições, é complicado... Quantas vezes nós, no sofá, gritamos «é falta» – a favor da nossa equipa, claro... – e, depois de vermos a repetição, alteramos o nosso parecer? Uma vez, estava a ver um jogo ao vivo. Depois de um lance, fiquei à espera da repetição. Percebi que não havia. O árbitro também deverá sentir esta necessidade, mas não pode rever os lances... O futebol é polémico, mas é essa polémica que vende. Sem escândalos, o futebol não faz negócio.

Google
 
Web www.galeriaaberta.com